Memórias
Os almoços com os meus avós, a comida feita em panela de ferro à lareira, as minhas encenações na eira em que transformava a eira em palco em menos de dois segundos, os vasos da minha avó pendurados por todo o lado, a minha primeira bicicleta, a roupa nova que usava sempre na Páscoa, as voltas de bicicleta até ao moinho de água e até aos pinhais a volta do campo de futebol, onde simulávamos piqueniques, enfim, memórias...
Os meus avós... a minha meiga e hipocondríaca avó e o meu frenético e brincalhão avô.
Veio me à cabeça a matança do porco em que ouvia assustada, no quarto, os grunhidos do animal preso ao carro de bois. Não me deixavam assistir, via apenas depois o animal, já pendurado de focinho para baixo, desditoso na sua sorte. Rapidamente seria transformado em chouriços e outros produtos alimentícios.
As cadeiras brancas em ferro, brancas em cima do pavimento em linóleo, numa pequena área de esplanada onde nos últimos tempos nos sentávamos a conversar com os dois velhinhos.
Naquele espaço sentia- se a sua presença. Estariam certamente satisfeitos por estarmos todos ali reunidos outra vez.
São lapsos de tempo que afinal não se apagaram nem vão apagar nunca. Mesmo arrumados e catalogados, vão certamente sempre vir à tona para deixar saudade. Mas é bom ter saudade, palavra sem tradução, que diz tudo, que só tem quem gosta.
Gosto de casas. Diria que à boa maneira de Garcia Marquez e Isabel Allende os espaços continuam habitados de espíritos, as paredes contam segredos, as árvores murmuram cantigas antigas.
Como num diário, agora é a vez do meu pai lavrar aquela terra, continuar com uma herança que está longe de ser só material!






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